O banquete que enxuga as lágrimas
Homilia do 28º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Is 25,6-10a · Sl 22(23) · Fl 4,12-14.19-20 · Mt 22,1-14
Queridos filhos e filhas, hoje a liturgia nos coloca diante de uma mesa. Uma mesa farta, preparada por Deus. O profeta Isaías sobe ao monte Sião e contempla uma cena extraordinária: o Senhor dos exércitos prepara um banquete para todos os povos, com carnes gordas e vinhos finos, com o melhor da terra. Não é uma cena de luxo. É uma imagem de salvação. No banquete de Deus, a fome termina, a solidão acaba, a morte é engolida para sempre. Escutamos a promessa mais bela de toda a Escritura: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra” (Is 25,8).
Esta é a raiz da esperança cristã. A palavra final de Deus sobre a história não é a morte, não é o pranto, não é a vergonha. É uma festa. Deus não sonha com um tribunal para nos julgar; Deus sonha com um banquete para nos acolher. E a morte, que parece ter a última palavra sobre tudo, será reduzida a nada. O profeta anuncia que Deus “engolirá a morte para sempre”. A morte não será vencida por um decreto, mas devorada, absorvida, aniquilada pela vida de Deus. E as lágrimas, todas elas, de todas as faces, serão enxugadas pela própria mão de Deus. Não sobrará uma única lágrima sem consolo.
O Salmo 22(23) nos faz cantar essa mesma confiança. O Senhor é nosso pastor, nada nos falta. Ele prepara a mesa diante de nós, mesmo em meio aos inimigos, e a bondade e a misericórdia nos acompanham todos os dias da nossa vida. A imagem do pastor e a imagem do banquete se encontram: Deus nos conduz, Deus nos alimenta, Deus nos faz habitar na sua casa por longos dias. É a mesma promessa de Isaías, cantada com a ternura de quem já experimentou o cuidado de Deus.
E o Evangelho de hoje torna essa imagem concreta e urgente. Jesus conta a parábola do banquete de casamento do filho do rei. O reino dos céus é como um rei que prepara a festa de núpcias para o seu filho. Tudo está pronto: os bois e os animais cevados já foram abatidos, a mesa está posta, os convidados são chamados. Mas os convidados recusam. Um vai para o seu campo, outro para os seus negócios. Estão ocupados demais. Alguns chegam a maltratar e matar os servos do rei. E o rei, então, envia os seus servos às encruzilhadas dos caminhos, para convidar todos os que encontrarem, bons e maus. E a sala do banquete se enche de convidados.
A tragédia dessa parábola não é que Deus deixe de convidar. A tragédia é que nós recusamos. Quantas vezes tratamos o convite de Deus como uma interrupção da nossa vida real? Estamos ocupados com os nossos campos e os nossos negócios, com as nossas agendas e as nossas preocupações, e a festa de Deus espera. A Eucaristia, o domingo, a oração, a caridade, não são acessórios da vida; são a própria festa. Quando dizemos “não tenho tempo para Deus”, na verdade estamos dizendo “tenho coisas mais importantes que a festa do Rei”. E nada, absolutamente nada, é mais importante do que o banquete para o qual fomos criados.
Mas a parábola tem ainda um segundo momento, que a forma breve do Evangelho de hoje nos permite contemplar com mais profundidade. Entre os que aceitaram o convite, um homem aparece sem a veste nupcial. O convite é gratuito, mas a resposta é real. A veste nupcial não é um ingresso que se compra; é a vida nova que recebemos e que precisamos vestir. São Paulo nos lembra que fomos batizados em Cristo e nos revestimos de Cristo (Gl 3,27). A veste nupcial é a graça que se torna vida: é o perdão dado, o pobre acolhido, o pecado abandonado, a fé que transborda em obras. Uma fé que não transforma a vida é uma lâmpada que não acende. Aceitar o convite sem vestir a veste é entrar na festa sem querer mudar de vida. E o Senhor, que respeita a nossa liberdade, não nos obriga a permanecer na festa contra a nossa vontade.
É aqui que a segunda leitura nos oferece o segredo para a caminhada. São Paulo, preso, experimentado na adversidade, escreve aos Filipenses: “Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade” (Fl 4,12). Paulo não é um estoico que aprendeu a ser indiferente às circunstâncias. Ele é um homem que descobriu que a sua força não vem das circunstâncias, mas de Cristo. E então pronuncia uma das frases mais amadas de toda a Escritura: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13).
Este é o segredo da vida cristã entre a promessa e o cumprimento. Nós vivemos entre o banquete de Isaías, que já começamos a saborear, e o banquete pleno que nos espera. No meio do caminho há pobreza e abundância, saúde e doença, alegria e lágrimas. Há dias de fartura e dias de necessidade. Mas a nossa paz não depende do tempo das circunstâncias. Depende daquele que nos dá força. “Tudo posso naquele que me dá força” não é um grito de autossuficiência; é uma declaração de total dependência amorosa. Eu posso tudo, não porque sou forte, mas porque sou amado. A minha capacidade não está em mim; está naquele que me sustenta.
Queridos filhos, a promessa de Isaías não é um sonho distante. Ela já está começando a se cumprir entre nós. Cada lágrima enxugada, cada morte acompanhada com esperança, cada desonra curada pelo perdão é um sinal de que o banquete já começou. E nós, convidados para a festa, somos chamados a responder. A vestir a veste nupcial, a viver com a força de Cristo, a caminhar rumo à mesa onde Deus enxugará toda lágrima.
A nossa paróquia é chamada a ser um antegosto desse banquete. Cada Missa é a festa de núpcias do Cordeiro antecipada. Cada vez que nos reunimos em volta desta mesa, antecipamos a mesa do Reino. E somos convidados a ser uma comunidade que enxuga lágrimas: que visita o doente, que consola o enlutado, que acolhe o excluído, que reparte o pão com quem tem fome. A comunidade que vive o banquete é a comunidade que aprendeu o segredo de Paulo: tudo é graça, tudo é possível naquele que nos dá força.
Que Maria, a Mãe que esteve aos pés da cruz e conheceu o peso das lágrimas, nos ensine a esperar contra toda esperança. Que ela nos ajude a dizer sim ao convite do Rei, a vestir a veste nupcial da caridade e a caminhar, com a força de Cristo, rumo ao banquete onde Deus, para sempre, enxugará as lágrimas de todas as faces.
Amém.
Pe. Uériques Santos
