A Vinha do Senhor, as Primícias do Coração e o Santo de Assis
Domingo, 4 de Outubro de 2026
27º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Memória de São Francisco de Assis
Leituras: Is 5,1-7 / Sl 79(80),9.12.13-14.15-16.19-20 (R. Is 5,7a) / Fl 4,6-9 / Mt 21,33-43
Amados filhos e filhas, a liturgia deste domingo nos convida a entrar numa vinha. O profeta Isaías canta o cântico do amigo que plantou uma vinha com todo o carinho e esperava dela uvas doces. O evangelho nos apresenta outra vinha, confiada a uns lavradores que não quiseram entregar os frutos ao seu dono. E, para tornar este dia ainda mais belo, a Igreja nos convida a celebrar São Francisco de Assis, o santo que entendeu melhor do que ninguém aquilo que as leituras de hoje nos ensinam: que tudo é dom de Deus e que a verdadeira alegria está em devolver tudo a ele. Neste fim de semana dedicado às primícias e ao dízimo, somos convidados a reconhecer que também somos a vinha do Senhor, plantada com amor, regada com ternura, protegida com zelo, e que espera dar frutos.
Deus é o agricultor que faz tudo por sua vinha. Isaías descreve cada gesto com delicadeza: ele cavou a terra, tirou as pedras, plantou videiras escolhidas, construiu uma torre de vigia, preparou o lagar. Tudo o que uma vinha poderia precisar, ele fez. E, mesmo assim, a vinha produziu uvas bravas, agraços amargos. O profeta então revela o mistério: a vinha é a casa de Israel, o povo amado de Deus. Deus esperava justiça e encontrou sangue derramado; esperava retidão e encontrou gritos de oprimidos.
Essa imagem atravessa os séculos e chega até nós. A vinha do Senhor, hoje, é a nossa comunidade, a nossa paróquia, a nossa família, a nossa própria vida. Deus plantou em nós coisas preciosas: a fé, a esperança, o amor, os talentos, o tempo, os bens. Ele não plantou por acaso. Plantou esperando frutos. E é exatamente aqui que o tema das primícias e do dízimo encontra o seu lugar mais profundo.
Na tradição bíblica, as primícias eram os primeiros frutos da colheita, oferecidos a Deus em sinal de que toda a colheita lhe pertencia. Oferecer as primícias era um ato de fé: reconhecer que Deus é a fonte de tudo e que nada nos falta quando confiamos nele. O dízimo nasce desse gesto. Não é um imposto, não é uma taxa, não é um pagamento por serviços religiosos. É um ato de culto, uma escola de gratidão, um exercício de confiança. Quando entregamos a Deus as primícias do nosso trabalho, do nosso salário, do nosso tempo, estamos dizendo com a vida aquilo que professamos com a boca: que Deus é o Senhor de tudo, e que nada é nosso, tudo é dom.
No evangelho, Jesus aprofunda esse mistério de maneira dura e bela ao mesmo tempo. O dono da vinha confia a terra a uns lavradores e se ausenta. No tempo da colheita, envia seus servos para receber os frutos. Mas os lavradores maltratam os servos, matam uns, apedrejam outros. Por fim, o dono envia o próprio filho, pensando: respeitarão o meu filho. Mas eles o matam, para ficar com a herança. Jesus então pergunta aos ouvintes: o que o dono fará com esses lavradores? E a resposta é clara: eles serão castigados, e a vinha será confiada a outros que entreguem os frutos no tempo certo.
Esta parábola é um espelho. Os lavradores maus somos nós, quando esquecemos que tudo o que temos é um empréstimo de Deus. A tentação de todo coração humano é acreditar que a vinha é nossa, que os frutos são nossos, que a vida é nossa. O pecado, no fundo, é isso: fechar a mão e dizer “isto é meu”, esquecendo que recebemos tudo das mãos amorosas de Deus. O dízimo, então, é a mão que se abre. É o gesto concreto que quebra a lógica do medo e da posse, e nos devolve à lógica da gratidão e da confiança.
E aqui brilha, diante de nós, o exemplo luminoso de São Francisco de Assis, cuja festa celebramos neste mesmo dia 4 de outubro. Francisco foi a prova viva de que o ser humano pode romper com a lógica da posse e viver na lógica do dom. Lembrem-se do gesto mais famoso de sua vida: diante de seu pai e do bispo, o jovem Francisco devolveu as roupas e a herança que recebera. Ele se despojou de tudo e disse, na prática: tudo o que tenho pertence a Deus. Aquele gesto foi a primícia perfeita, a entrega total, o dízimo levado ao extremo, não apenas dos bens, mas da própria vida. Enquanto os lavradores maus da parábola matavam para ficar com a herança, Francisco devolveu a herança inteira para abraçar o Pai.
E vejam como a gratidão mudou o coração de Francisco. Quem entrega tudo a Deus não fica amargo, não fica pobre de alegria; pelo contrário, transborda de louvor. Foi por isso que ele compôs o Cântico das Criaturas, louvando o Senhor pelo irmão sol, pela irmã lua, pelas estrelas, pelo vento, pela água, pela terra que nos sustenta. Francisco não via as criaturas como bens a conquistar, mas como presentes a agradecer. Essa é a alma do dízimo: enxergar a vida inteira como um cântico de gratidão ao Deus que dá tudo, e responder devolvendo as primícias do nosso coração. Quem vive assim descobre que ser pobre diante de Deus é ser rico de verdade.

São Paulo, na segunda leitura, nos dá a chave para viver tudo isso sem medo. Ele escreve: não vos inquieteis com nada; em tudo, pela oração e pela súplica, apresentai a Deus os vossos pedidos, com ações de graças. E a paz de Deus, que supera todo entendimento, guardará vossos corações e vossas mentes em Cristo Jesus. Vejam a conexão maravilhosa: a gratidão gera paz. Quem agradece não tem medo. Quem devolve a Deus as primícias confia que Deus cuidará do resto. O dízimo, vivido com fé, é um remédio contra a ansiedade, porque nos lembra que a nossa segurança não está no que acumulamos, mas nas mãos de Deus.
Nesta nossa paróquia, a vinha do Senhor tem nome: é a nossa comunidade, é cada família, é cada pessoa que cruza o nosso caminho. Deus espera de nós frutos. Que frutos? Os frutos que Paulo enumera: tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, tudo o que é virtude e merece louvor. E também os frutos concretos da caridade: o cuidado com os pobres, a acolhida aos que sofrem, a participação na vida da comunidade, o sustento das obras de evangelização. São Francisco abraçou um leproso na estrada e o mundo nunca mais foi o mesmo. Cada gesto nosso de caridade e de partilha também transforma a nossa comunidade.
O dízimo é uma dessas respostas concretas. Quando cada família, cada pessoa, oferece com alegria as primícias dos seus ganhos, a comunidade ganha condições de ser aquilo que Deus sonhou para ela: uma vinha fecunda, onde a Palavra é anunciada, os sacramentos são celebrados, os pobres são acolhidos, os jovens são formados, os doentes são visitados. O dízimo não é para engordar cofres; é para fazer frutificar a vinha. É a nossa maneira de dizer ao Senhor: a tua vinha está em boas mãos, porque está nas mãos da tua graça.
Filhos e filhas, a liturgia de hoje nos faz a mesma pergunta que Jesus fez aos seus ouvintes: o que daremos ao dono da vinha? A resposta mais bela é esta: devolveremos a ele a própria vida. O dízimo é apenas o começo, um sinal pequeno e concreto de uma entrega muito maior. Deus não precisa do nosso dinheiro; ele precisa do nosso coração. Ele não quer apenas as primícias dos nossos bens; ele quer as primícias da nossa vida: o nosso tempo, os nossos talentos, o nosso amor, os nossos sonhos, as nossas dores.
Que São Francisco de Assis, o pobre que foi rico em Deus, interceda por nós e nos ensine a abrir as mãos. Que ele nos ensine a chamar de irmão tudo aquilo que recebemos, e a devolver ao Pai, com alegria, as primícias de cada dia. E que a Virgem Maria, a serva fiel que entregou tudo a Deus, nos acompanhe neste caminho. Que, ao final da nossa jornada, o Senhor encontre em nós uma vinha que produziu frutos de justiça, de paz e de amor, e que possamos ouvir dele as palavras que Francisco tanto desejou: servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor. Que assim seja. Amém.
Pe. Uériques Santos
