|

Homilia do 22º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Qual vida nós queremos?

O amor que buscamos é a vida que buscamos

Amada comunidade, Povo de Deus, o Evangelho de hoje nos coloca diante da pergunta mais radical que um ser humano pode fazer: qual vida nós queremos? Não “o que queremos da vida”, mas “qual vida queremos”. Porque existem vidas e vidas. Existe a vida que se guarda e existe a vida que se doa. Existe a vida que termina e existe a vida que começa quando tudo parece acabar.

Hoje o Senhor nos revela um mistério profundo: a forma como compreendemos a vida é a forma como compreendemos o amor. O amor que buscamos é a vida que buscamos. Se buscamos um amor que apenas deseja, teremos uma vida que apenas passa. Se buscamos um amor que se entrega, teremos uma vida que não acaba.

A sedução de Deus e o desejo que não se apaga

O profeta Jeremias começa nossa reflexão com uma palavra que perturba: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Não “convenceste-me”. Não “provaste-me com argumentos”. Seduziste-me. Deus não começa pela Lei, começa pelo desejo. Coloca no coração humano uma fome que o mundo não pode matar.

É o salmista que canta: “a minha alma tem sede de vós, minha carne vos deseja, como terra árida, sedenta, sem água” (Sl 62,2). Notem a ousadia: a carne deseja Deus. Não apenas a alma. O corpo inteiro, a existência inteira, é atravessada por uma sede que só o Incriado pode saciar. E Jeremias confessa a contradição de quem foi seduzido por Deus: “dizia: não pensarei mais nele, não falarei mais em seu nome. Mas havia no meu coração como um fogo ardente” (v. 9).

Irmãos, pergunto: há ainda em nós esse fogo? Ou a nossa fé se tornou rotina, obrigação sem alma? Cristão sem desejo é coveiro de Deus. O primeiro passo da conversão é reacender a sede.

Oferecei vossos corpos: a vida que se consagra

São Paulo eleva o discurso. Não basta desejar, é preciso oferecer. E aqui está uma chave teológica fundamental: Paulo não pede que ofereçamos a “alma” ou “sentimentos piedosos”. Pede algo muito mais concreto: “oferecei vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12,1).

A vida biológica, o bios, não é algo que a fé cristã despreza. É algo que a fé cristã consagra. O corpo humano, oferecido a Deus, deixa de ser instrumento de concupiscência e torna-se altar sagrado. O sacrifício cristão não mata. Vive. Não destrói o bios. Transfigura-o.

Isto exige uma conversão da mente: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (v. 2). A lógica do mundo diz: guarda tua vida e terás vida. A lógica do Evangelho diz: oferece tua vida e ganharás a Vida.

O drama de Pedro: o amor que não aceita a Cruz

Chegamos ao cume do Evangelho. Jesus anuncia pela primeira vez a Cruz: que deve ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar. E Pedro, que acabara de confessar “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, repreende o Mestre: “Deus não permita, Senhor! Isso não te acontecerá!”

Irmãos, aqui está o coração de tudo. Pedro é o exemplo vivo de que a forma como compreendemos a vida é a forma como compreendemos o amor.

Pedro amava Jesus. Amava de verdade. Mas que amor era o seu? Era o amor que deseja (eros) e o amor que reconhece (philia). Pedro desejava estar com Jesus, queria o Reino, queria o Mestre vivo e vitorioso. Pedro reconhecia Jesus como amigo, como Senhor, como Cristo. Mas o seu amor era ainda um amor que queria conservar a vida. A vida biológica (bios) e a vida pessoal (psyché) de Jesus. Por isso não suporta a Cruz.

Pedro compreendia a vida como bios e psyché: vida que se guarda, vida que se protege, vida que se preserva. E compreendia o amor como eros e philia: amor que deseja o bem do amigo, amor que quer proteger quem se ama. Pedro não era hipócrita. Era sincero. Mas era sincero na lógica do mundo. E a lógica do mundo, por mais sincera que seja, não pode salvar.

Por isso Jesus responde com palavras que parecem duras, mas são a maior misericórdia: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim um escândalo, porque não tens o gosto das coisas de Deus, mas só dos homens” (Mt 16,23). O amor que quer o bem sem a Cruz não é amor de Deus. É amor do mundo. E o amor do mundo, por mais nobre que seja, não ressuscita.

E então vem a sentença que define toda a vida cristã: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la” (vv. 24-25).

A palavra grega que Jesus usa para “vida” aqui é psyché: a vida pessoal, consciente, subjetiva. O próprio “eu”. Jesus está pedindo algo radical: perder a psyché. Toda a espiritualidade moderna promete: “encontre-se a si mesmo, seja sua melhor versão, realize-se”. Cristo diz o oposto: perca-se a si mesmo. Não porque o eu seja mau, mas porque o eu fechado em si é uma prisão. Quem se realiza apenas em si, se perde para sempre. Quem se perde em Cristo, encontra-se para sempre.

Do martírio de Pedro: o nascimento do ágape

Mas a história de Pedro não termina aqui. Termina em outra Cruz. Pedro, que quis afastar Jesus da Cruz, morreu crucificado. De cabeça para baixo, em Roma, sob Nero.

O Pedro que compreendia a vida como bios e psyché, e o amor como eros e philia, foi transformado. Na praia de Tiberíades, depois da Ressurreição, Cristo perguntou três vezes: “Amas-me?” (Jo 21,15-17). Cristo não perguntou “desejas-me?” (eros). Não perguntou “és meu amigo?” (philia). Perguntou “amas-me?” (ágape). E Pedro, que antes só conhecia o eros e a philia, agora, pela graça, começa a viver o ágape: o amor que não busca, mas se entrega. O amor que não reconhece, mas cria valor no amado. O amor que desce até o indigno, até o inimigo, até a Cruz.

E esse ágape, irmãos, Pedro o viveu no martírio. O Pedro que não queria a Cruz para Jesus, abraçou a Cruz para si mesmo. O Pedro que queria conservar a vida (bios, psyché), entregou a vida (psyché) num ato de amor divino (ágape), e dessa entrega brotou a zoé, a vida eterna que se comunica à Igreja.

A pergunta para nós hoje

Filhos e filhas, qual vida nós queremos?

Se queremos a vida que se guarda, a vida que se protege, a vida que se realiza em si mesma, então nos contentemos com o eros e a philia. Sejamos sinceros, nobres, até heróicos em nossa medida. Mas saibamos que essa vida termina na morte. O bios sem a zoé é vida que apodrece. A psyché sem a zoé é personalidade que se dissolve.

Mas se queremos a vida que não acaba, a vida que é participação na própria vida de Deus, então precisamos do ágape. Precisamos do amor que desce, que se entrega, que não calcula, que não mede, que não pergunta “o que eu ganho com isso”, mas pergunta “como posso me dar”.

O mundo vive hoje uma crise do ágape. Não crise do eros, que está mais ativo que nunca. Não crise da philia, que se refugia em tribos e bolhas. Crise do ágape: o amor que desce até o inimigo, que perdoa sem merecimento, que se entrega na Cruz. Este amor desapareceu do horizonte cultural. Por isso o mundo está doente. Por falta de doação.

A Igreja existe para ser, no mundo, o lugar onde o ágape se torna visível. Se a Igreja não é ágape, não é Igreja de Cristo. É apenas mais uma instituição religiosa entre as tantas.

Onde se vive o ágape

No matrimônio, quando o esposo renuncia a si mesmo por amor à esposa, quando a esposa se entrega ao esposo não como objeto, mas como dom. O eros conjugal, sem a renúncia, se torna posse. Com a renúncia, se torna sacramento do amor de Cristo pela Igreja.

No sacerdócio, quando o padre gasta a vida. Como o Cura d’Ars, padroeiro desta paróquia, que ficou 40 anos numa pequena aldeia, sem buscar promoção, sem buscar reconhecimento. A crise do sacerdócio hoje não é de identidade. É de ágape.

Na doença, quando o idoso oferece seu sofrimento em união à Cruz, sem desespero. Quantos de nossos irmãos, na cama do hospital, deram a maior homilia da paróquia sem subir ao púlpito.

Na caridade, quando o jovem vai à casa do pobre não como voluntário que tira foto, mas como irmão que se senta, que escuta, que se esvazia. O ágape não faz propaganda. Faz presença.

A matemática divina

A matemática do mundo: guarda, ganha; perde, perde. A matemática de Cristo: guarda, perde; perde, ganha.

Pedro aprendeu essa matemática. Demorou, caiu, negou, chorou. Mas aprendeu. E no fim, de cabeça para baixo numa Cruz romana, Pedro viveu o ágape que antes não conhecia. E daquele martírio nasceu a Igreja de Roma, que até hoje prega o amor que desce.

Que escolheremos hoje? Viveremos o eros sem ágape, a philia sem cruz, o bios sem zoé? Ou aceitaremos a sedução de Deus, aquele fogo que queimava em Jeremias e não o deixava em paz?

Peçamos a graça, nesta Eucaristia, de perder a nossa vida para encontrá-la. Que Santa Helena, que encontrou a Cruz no Calvário, interceda por nós. Que o Santo Cura d’Ars, que entregou sua vida à Cristo para ganhar milhares de almas, nos ensine o caminho. Que a Eucaristia que vamos celebrar, o bios de Cristo transfigurado em zoé, a psyché de Cristo entregue em ágape, seja o nosso alimento e a nossa meta.

E então, no fim da vida, não ouviremos a sentença terrível: “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” Mas a sentença bendita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino” (Mt 25,34).

Porque nAquele que foi crucificado, a vida divina se revelou. E n”Aquele que ressuscitou, a vida divina se comunicou.

Para todo o sempre. Amém.


Pe. Uériques Santos