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Homilia do 23º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Minha Casa, Minha Parte: onde o amor se faz comunidade

Queridos filhos e filhas, comecemos com uma pergunta simples e profunda: o que significa, de verdade, amar? Não o amor que passa, mas o amor que dá sentido à vida inteira. São Paulo nos responde hoje com uma frase que é um tesouro: o amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,10). E a liturgia deste domingo nos mostra, passo a passo, como esse amor se faz carne na nossa vida: na responsabilidade pelo irmão, na escuta da Palavra, na vida em comunidade e na participação concreta na missão da Igreja.

A primeira leitura nos coloca diante de uma imagem forte: a sentinela. Deus diz a Ezequiel: eu te coloquei como sentinela para a casa de Israel (Ez 33,7). A sentinela fica no alto da muralha para avisar o povo do perigo. Mas o aviso não é uma condenação. É um ato de amor. Deus não quer a morte do pecador, quer que ele se converta e viva. E a sentinela é responsável pelo irmão: se ela não avisar, o sangue do irmão será cobrado dela. Esta é a primeira grande lição: diante de Deus, somos responsáveis uns pelos outros. Ninguém pode dizer: isso não é problema meu. O irmão que erra é meu irmão, e eu sou, de certa forma, a sua sentinela.

O Salmo 94 nos convida a responder a esse chamado com o coração aberto: vinde, exultemos de alegria no Senhor! E o refrão que repetimos é um apelo: não endureçais o vosso coração. O salmo recorda o deserto, quando o povo endureceu o coração e pôs Deus à prova. Hoje, se ouvirmos a sua voz, não podemos fechar o coração. A escuta da Palavra é o primeiro passo do amor: amar é, antes de tudo, ouvir.

São Paulo, na segunda leitura, dá o passo decisivo: a ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor mútuo (Rm 13,8). Que frase linda! Podemos dever muitas coisas na vida, mas há uma dívida que nunca se paga por completo: a dívida do amor. E o Apóstolo explica: quem ama o próximo cumpre toda a Lei. Não rouba, não mata, não engana, não cobiça. Todos os mandamentos se resumem numa só palavra: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Rm 13,9). O amor não é um mandamento a mais; o amor é a alma de todos os mandamentos. Sem amor, a Lei vira peso; com amor, a Lei vira caminho de liberdade.

E o Evangelho de Mateus nos mostra como esse amor se pratica no dia a dia da comunidade. Jesus ensina a correção fraterna: se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas a sós contigo (Mt 18,15). O primeiro passo não é o tribunal, não é o julgamento público, não é a murmuração. É o encontro pessoal, cara a cara, com o desejo de ganhar o irmão, não de vencê-lo. A correção fraterna é um ato de amor, o mais delicado e difícil dos atos de amor, porque exige humildade em quem corrige e humildade em quem é corrigido. E se o irmão não ouvir? Jesus prevê os passos: testemunhas, depois a comunidade. Mas o objetivo nunca é destruir; é sempre reconquistar, é sempre restaurar a comunhão.

E então Jesus nos dá a chave de ouro: onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles (Mt 18,20). A comunidade não é um clube de pessoas perfeitas. É o lugar onde Cristo se faz presente, onde o perdão é possível, onde a correção se transforma em reconciliação. É na comunidade que o amor de Deus se torna visível.

Filhos, tudo isso fala diretamente da nossa vida. Quantas vezes vemos um irmão se afastando e pensamos: não é problema meu? Quantas vezes preferimos o comentário pelas costas à conversa franca e amorosa? Quantas vezes endurecemos o coração e deixamos de ouvir a voz de Deus, que nos fala através da Palavra, da família, da Igreja? A sentinela de Ezequiel nos lembra que somos responsáveis uns pelos outros. A correção fraterna de Jesus nos ensina que o amor verdadeiro não tem medo de conversar, de perdoar, de recomeçar. E a promessa de Cristo nos assegura: onde há comunidade reunida em seu nome, ali Ele está. A nossa paróquia é chamada a ser essa comunidade: um lugar onde ninguém fica sozinho, onde ninguém é deixado para trás, onde o amor se faz cuidado concreto.

E é aqui que entra, de modo muito natural, a mensagem das Primícias e da Campanha do Dízimo Minha Casa, Minha Parte. Porque o dízimo não é um imposto, não é uma taxa, não é um pagamento por serviços religiosos. O dízimo é uma resposta de amor. É a nossa parte na construção da casa comum da fé. Quando o povo de Israel oferecia a Deus as primícias, os primeiros frutos da colheita, ele reconhecia que tudo vem de Deus: a terra, a chuva, o trabalho, a vida. As primícias eram um gesto de gratidão e de pertença. E o dízimo nasce dessa mesma raiz: devolver a Deus uma parte do que recebemos, com alegria e confiança, porque tudo é dom.

Minha Casa, Minha Parte: cada um de nós tem uma casa, que é a nossa paróquia, e cada um de nós tem uma parte, que é a sua contribuição, o seu carisma, o seu serviço, o seu dízimo. Não existe comunidade sem participação. O amor que cumpre a Lei se torna concreto quando colocamos algo de nós na casa de Deus: o nosso tempo, os nossos dons, os nossos bens. O dízimo é a forma de dizermos com a vida: esta é a minha casa, esta é a minha parte, esta é a minha comunidade, e eu quero que ela viva e cresça. Quem ama, dá. Quem é grato, devolve. Quem se sente pertencente, participa. E quem participa, encontra Cristo presente no meio da comunidade, exatamente como Ele prometeu.

Neste final de semana das Primícias, somos convidados a fazer do dízimo um ato de fé e de amor, não um cálculo. Não se pergunta primeiro quanto posso dar, mas quanto amo esta comunidade e esta missão. O dízimo sustenta a evangelização, a catequese, a caridade, a manutenção da casa que é de todos. Ele é a nossa parte para que a sentinela continue vigiando, para que a Palavra continue sendo anunciada, para que nenhum irmão fique sem o pão da fé e o pão da mesa.

Queridos filhos e filhas, a liturgia de hoje nos deixa um caminho claro. Primeiro, ouvir: não endureçais o vosso coração. Segundo, amar: o amor é o cumprimento perfeito da Lei. Terceiro, cuidar: ser sentinela do irmão, corrigir com amor, reconquistar quem se perdeu. E quarto, participar: dar a nossa parte, com gratidão e alegria, para que a casa de Deus seja verdadeiramente a nossa casa.

Cristo está no meio de nós. Ele prometeu e cumpre. Quando nos reunimos em seu nome, Ele está aqui, na Palavra, na Eucaristia, no irmão. Que este domingo seja um novo começo: um coração aberto, uma escuta atenta, um amor que se faz gesto concreto. Que as nossas primícias, oferecidas com fé, sejam sinal de que entregamos a Deus, antes de tudo, o nosso coração. Porque, no fim, o que Deus espera de nós não é o nosso dinheiro, mas o nosso amor. E quem ama de verdade, dá de verdade, e descobre que quem dá, recebe muito mais, porque recebe o próprio Deus. Amém.

Pe. Uériques Santos

Para saber mais sobre nossa campanha “Minha Casa, Minha Parte”, acesse este link: https://santahelenajau.com.br/dizimo/