A semente caiu em terra boa e deu fruto
Amada comunidade, o profeta Isaías nos oferece hoje uma imagem de uma simplicidade desconcertante. Assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam vazias, mas irrigam, fecundam, fazem germinar, assim é a Palavra que sai da boca de Deus. Notemos: Isaías não diz que a chuva pode fecundar. Diz que ela fecunda. A Palavra de Deus tem propósito. A chuva não cai por acaso, cai para irrigar. A Palavra não é proferida por engano, é pronunciada para transformar. Quando Deus fala, algo acontece. Há uma força ontológica inscrita na própria Palavra: ela carrega em si a potência de realizar aquilo para o que foi enviada. Mas a chuva cai sobre toda a terra, e frutifica onde encontra solo preparado.

São Paulo alarga este horizonte para dimensões cósmicas. Toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus. A criação geme como em dores de parto. Irmãos, não é apenas o sofrimento humano, é um gemido cósmico. A criação inteira clama por propósito, por sentido, por Deus. Há algo tentando nascer. Os gregos antigos chamavam de maiêutica, a arte de partejar. O que Paulo nos diz é algo infinitamente mais profundo: a criação inteira está numa maiêutica cósmica, aguardando que a Palavra que caiu como chuva produza finalmente o seu fruto. E nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos interiormente. Este gemido não é desespero, é parto. Algo está nascendo.
Passemos ao Evangelho. Jesus sai de casa e senta-se à margem do mar. Cada detalhe é teológico. Jesus sai de casa: a Palavra não permanece fechada, vai ao encontro. Senta-se à margem: o lugar da fronteira, onde o conhecido encontra o caos. Entra na barca e senta-se: a barca como cátedra, imagem da Igreja, de onde a Palavra ressoa enquanto a multidão permanece na praia, na história, no concreto da existência.
E então: o semeador saiu para semear. O semeador não analisa o solo. Não faz estudo de viabilidade. Lança a semente em todo lugar: à beira do caminho, no pedregoso, entre os espinhos, na boa terra. A graça de Deus não é seletiva. Semeia mesmo onde aparentemente vai fracassar.
Mas Jesus interpreta a parábola e revela: a semente é sempre a mesma, a Palavra do Reino. Os terrenos é que são diferentes. E não são quatro tipos de pessoas, são quatro estados do coração, pelos quais todos podemos passar.
À beira do caminho: ouve sem compreender. O Maligno rouba o que foi semeado. É a superficialidade radical: sabe que tem que fazer, mas não faz. A vontade existe, mas é sucumbida antes de se tornar ação. A semente nem chega a entrar no solo.
No pedregoso: acolhe com alegria, mas sem raiz. Ao primeiro sofrimento, desiste. É a procrastinação espiritual: tem vontade de mudar, mas não consegue aprofundar. “Depois eu mudo.” “Amanhã eu começo.” A semente brota, há emoção, mas não há profundidade. Quando vem o sol, a planta seca.
Nos espinhos: a Palavra é ouvida, mas ao mesmo tempo se ouvem os barulhos do mundo. As preocupações, a ilusão da riqueza, a ansiedade, a comparação. O coração está dividido. Tem vontade, mas logo se desanima. A Palavra não morre por ódio, morre por sufocamento.
E a terra boa: ouve e compreende. Produz fruto. Mas notem, o fruto é desigual. Cem, sessenta, trinta. Deus não exige uniformidade. Cada um produz segundo sua medida. O importante é produzir.
Irmãos, São Tomás de Aquino falaria aqui de akrasia, a fraqueza da vontade. Sabe-se o bem, quer-se o bem, mas não se faz o bem. A beira do caminho é a akrasia radical: a Palavra nem chega a ser querida. O pedregoso é a akrasia emocional: quer-se, mas sem perseverança. O espinhoso é a akrasia dividida: quer-se, mas ao mesmo tempo se querem outras coisas. A terra boa é a superação da akrasia: a vontade que se torna ação, a Palavra que se torna vida.
Retornemos a Isaías. A chuva não volta vazia. A Palavra de Deus não volta vazia. Mas isso não significa que todo solo produza. Significa que onde houver recepção, haverá fruto. A eficácia da Palavra é certa, mas ela respeita a liberdade do terreno. Deus não força a terra a produzir. Ele semeia, rega, aguarda. E a criação inteira geme, aguardando que nos tornemos a terra boa, para que a Palavra que desce do céu encontre em nós o solo onde possa germinar.
Que a Virgem Maria, que ouviu a Palavra e a guardou no coração, a terra boa por excelência, interceda por nós, para que não sejamos superficialidade, nem entusiasmo sem raiz, nem coração dividido, mas terra boa que acolhe, compreende e produz fruto. Cem, sessenta, trinta. Cada um segundo sua medida. Mas que haja fruto. Amém.
