A Deus o que é de Deus: a família chamada a viver a fé no mundo
Homilia do 29º Domingo do Tempo Comum, Ano A
18 de outubro de 2026

A Palavra de Deus deste domingo nos convida a refletir sobre uma questão fundamental para a vida cristã: a quem pertence o nosso coração? Vivemos em um mundo cheio de compromissos, responsabilidades, preocupações e exigências. Precisamos trabalhar, cuidar da casa, educar os filhos, cumprir nossos deveres como cidadãos e enfrentar os desafios de cada dia. No meio de tantas ocupações, porém, existe um perigo: organizar a vida inteira em torno das coisas que precisamos fazer e deixar Deus em segundo plano. É justamente nesse contexto que ressoa a palavra de Jesus no Evangelho: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).
Na primeira leitura, o profeta Isaías nos apresenta uma afirmação surpreendente. Deus fala de Ciro, um rei estrangeiro que não o conhecia plenamente, e revela que até mesmo os acontecimentos da história podem servir à realização de seus desígnios. O Senhor declara: “Eu sou o Senhor, não existe outro”. Essa Palavra nos recorda que Deus continua sendo o Senhor da história, mesmo quando os caminhos da vida parecem difíceis de compreender. A história não está abandonada à própria sorte, e a nossa existência não depende exclusivamente daquilo que conseguimos controlar.
Essa verdade tem uma importância especial para as famílias. Quantas vezes os pais se angustiam porque não conseguem resolver todos os problemas dos filhos? Quantas famílias atravessam dificuldades financeiras, enfermidades, conflitos, crises conjugais e preocupações com o futuro? Quantas pessoas se deitam à noite com a sensação de que fizeram tudo o que podiam, mas ainda assim não conseguiram colocar todas as coisas em ordem? A fé não significa que os problemas desaparecerão, nem que Deus fará tudo exatamente como desejamos. Significa reconhecer que não estamos sozinhos e que podemos atravessar as provações sem perder a esperança. A providência divina não nos dispensa da responsabilidade, mas nos ensina a agir com confiança, mesmo quando não conseguimos enxergar o resultado de nossos esforços.
O salmo deste domingo amplia essa perspectiva ao convocar toda a humanidade a reconhecer a grandeza do Senhor. A liturgia proclama: “Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!”. A família, portanto, não é chamada a viver fechada em si mesma, como se a fé fosse uma experiência exclusivamente particular. Ela é convidada a testemunhar a glória de Deus diante do mundo. Quando os esposos procuram viver a fidelidade, quando os pais educam os filhos no amor e na verdade, quando os irmãos aprendem a perdoar e quando os membros de uma casa se preocupam com aqueles que sofrem, a fé deixa de ser apenas uma palavra e se torna uma realidade visível.
É no cotidiano que muitas famílias descobrem o verdadeiro significado da santidade. Nem sempre ela aparece em grandes acontecimentos. Muitas vezes, manifesta-se na paciência de quem cuida de uma pessoa enferma, na coragem de quem trabalha honestamente para sustentar a casa, na humildade de quem reconhece um erro, no diálogo que impede uma discussão de se transformar em ferida e na capacidade de recomeçar depois de uma decepção. A família cristã não é aquela em que ninguém erra, mas aquela que procura permitir que Deus transforme seus erros, cure suas feridas e renove seu amor.
Na segunda leitura, São Paulo recorda a comunidade de Tessalônica pela atuação de sua fé, pelo esforço de sua caridade e pela firmeza de sua esperança em Jesus Cristo. Essas três realidades oferecem um caminho concreto para a vida familiar. A fé nos ensina a confiar em Deus e a orientar nossas decisões segundo o Evangelho. A caridade nos leva a amar não apenas quando é fácil, mas também quando o amor exige renúncia, paciência e sacrifício. A esperança nos ajuda a não desistir das pessoas, mesmo quando os frutos de nossos esforços parecem demorar.
São Paulo também afirma que o Evangelho não chegou àquela comunidade somente por palavras, mas pela força do Espírito Santo. Aqui encontramos uma responsabilidade essencial dos pais e de todos aqueles que participam da educação cristã das novas gerações. Os filhos precisam ouvir falar de Deus, mas também precisam encontrar sinais de sua presença na vida daqueles que os educam. Não basta ensinar a oração se nunca nos veem rezar. Não basta falar sobre perdão se dentro de casa alimentamos ressentimentos. Não basta ensinar a importância da Missa se tratamos a participação na Eucaristia como algo secundário. A transmissão da fé acontece por meio das palavras, mas ganha credibilidade quando encontra correspondência na vida.
Isso não significa exigir que os pais sejam perfeitos. Pelo contrário, uma das lições mais importantes que os filhos podem receber é a de ver seus pais reconhecendo os próprios erros, pedindo perdão e procurando mudar. Uma família que reza unida, conversa com sinceridade e aprende a reconciliar-se oferece às novas gerações uma experiência concreta de que Deus não é apenas alguém de quem se ouve falar, mas aquele em quem se pode confiar.
Chegamos, então, ao Evangelho. Os adversários de Jesus procuram colocá-lo em uma armadilha, perguntando se é lícito pagar o imposto a César. A pergunta parece simples, mas esconde uma tentativa de obrigá-lo a escolher entre posições políticas e religiosas. Jesus, porém, não se deixa aprisionar pela armadilha. Pede que lhe mostrem a moeda, pergunta de quem é a imagem nela gravada e, diante da resposta, declara: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Jesus não está ensinando que a fé deve ficar restrita à igreja ou que Deus não tem nada a ver com a vida social. Tampouco está afirmando que todas as exigências das autoridades humanas devem ser aceitas sem discernimento. Ele estabelece uma distinção fundamental: existem responsabilidades legítimas diante da sociedade, mas nenhuma realidade humana pode ocupar o lugar absoluto que pertence a Deus.
O cristão não é chamado a fugir do mundo, mas a transformá-lo segundo o Evangelho. Deve cumprir seus deveres civis, agir com honestidade, respeitar o próximo, trabalhar pelo bem comum e contribuir para uma sociedade mais justa. Ao mesmo tempo, precisa conservar a liberdade interior para não transformar o dinheiro, o poder, o sucesso ou qualquer ideologia em senhor de sua consciência. Quando uma exigência humana entra em contradição com a lei de Deus, a consciência cristã deve permanecer fiel à verdade e à dignidade da pessoa humana.
Essa mensagem toca diretamente a vida familiar. A pergunta de Jesus também pode ser dirigida ao nosso lar: estamos dando a Deus o lugar que lhe pertence? Não se trata apenas de perguntar se temos uma imagem religiosa na parede, uma Bíblia sobre a mesa ou um crucifixo em algum cômodo da casa. Tudo isso pode ser sinal de uma fé preciosa, mas a questão decisiva é se permitimos que Deus ilumine nossas escolhas, nossos relacionamentos, a educação dos filhos, a maneira como utilizamos o dinheiro e a forma como tratamos as pessoas que vivem conosco.
Às vezes, uma família possui recursos para muitas coisas, mas não encontra tempo para rezar em conjunto. Há tempo para o trabalho, para as obrigações, para as telas e para o entretenimento, mas quase nenhum espaço para escutar a Palavra de Deus ou participar da vida da Igreja. Em outras situações, a preocupação em oferecer conforto material aos filhos é tão grande que se acaba deixando em segundo plano aquilo que realmente os sustenta por dentro: a formação da consciência, a educação para o amor, a experiência da oração e o encontro pessoal com Cristo.
É claro que o trabalho, o sustento da casa e o cuidado com os filhos são responsabilidades importantes e legítimas. O problema não está em cuidar das coisas deste mundo, mas em permitir que elas ocupem todo o espaço do coração. Uma família pode trabalhar muito e continuar sendo profundamente cristã. Pode enfrentar dificuldades financeiras e conservar uma grande riqueza espiritual. O essencial é que Deus não seja lembrado apenas nos momentos de desespero, mas reconhecido como fundamento das decisões e dos projetos de toda a família.
Há, porém, uma pergunta ainda mais profunda escondida nas palavras de Jesus. Se a moeda pertence a César porque traz a sua imagem, a quem pertencemos nós? A resposta nos conduz ao princípio da criação: o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. A moeda traz a imagem do imperador, mas a pessoa humana traz em si uma dignidade que não pode ser reduzida ao dinheiro, à utilidade, à aparência ou ao sucesso.
Por isso, dar a Deus o que é de Deus significa entregar-lhe a própria vida. Significa reconhecer que nossa existência é um dom e que somos chamados a viver segundo o amor para o qual fomos criados. Significa também reconhecer essa mesma dignidade no esposo, na esposa, nos filhos, nos idosos, nos pobres e em todas as pessoas que encontramos. Não podemos dizer que pertencemos a Deus enquanto desprezamos aqueles que foram criados à sua imagem.
Dentro de casa, essa verdade exige conversão. O marido não pode tratar a esposa como propriedade sua, nem a esposa pode reduzir o marido a alguém que existe apenas para satisfazer suas expectativas. Os filhos não são objetos de realização pessoal dos pais, mas pessoas confiadas ao seu cuidado, com dignidade, vocação e liberdade. O amor familiar não é domínio, manipulação ou posse. É responsabilidade, respeito, entrega e busca sincera do bem do outro.
Quando o trabalho se torna mais importante do que a presença junto aos filhos, quando o orgulho impede um pedido de perdão, quando a agressividade substitui o diálogo ou quando o egoísmo transforma a convivência em uma disputa, alguma coisa precisa voltar ao seu devido lugar. Deus não deseja ocupar apenas alguns minutos de nossa rotina. Ele quer iluminar toda a nossa existência, para que aprendamos a amar com o coração de Cristo.
E essa missão não termina nas paredes de casa. As famílias cristãs são chamadas a participar da construção de uma sociedade mais humana. Os leigos têm uma missão insubstituível no mundo do trabalho, na educação, na política, na cultura, nas associações, nas comunidades e em todos os ambientes onde a dignidade humana precisa ser defendida. A vocação cristã não se limita à participação nas celebrações religiosas. Ela se manifesta também nas escolhas éticas, na honestidade profissional, na solidariedade com os necessitados, no compromisso com a justiça e na coragem de defender a vida.
Uma família que educa os filhos para a verdade, ensina a respeitar as diferenças, acolhe os pobres e procura viver a solidariedade torna-se uma pequena escola de humanidade. E quando essas famílias se unem na comunidade cristã, colaborando com a evangelização, a catequese, a pastoral familiar e o serviço aos mais necessitados, ajudam a Igreja a cumprir sua missão no mundo.
O grande desafio deste domingo, portanto, não é escolher entre Deus e as responsabilidades da vida cotidiana, como se fossem realidades necessariamente opostas. É aprender a viver todas as nossas responsabilidades diante de Deus, permitindo que a fé transforme a maneira como trabalhamos, educamos, decidimos, servimos e amamos.
Que o Senhor nos conceda famílias que não tenham medo das dificuldades, porque aprenderam a confiar na providência divina; famílias que não escondam suas fragilidades, mas encontrem em Cristo a força para recomeçar; famílias que transmitam a fé não apenas com palavras, mas com o testemunho de uma vida coerente; e famílias que compreendam que pertencer a Deus significa aprender a amar cada pessoa segundo a dignidade que recebeu do Criador.
Neste domingo, diante do altar, peçamos a graça de devolver ao Senhor aquilo que sempre lhe pertence: o nosso coração, a nossa família, os nossos projetos, o nosso trabalho e toda a nossa existência. Que nenhuma preocupação deste mundo nos faça esquecer de quem somos e de quem nos criou. E que, em nossas casas e em todos os ambientes da sociedade, a nossa vida possa proclamar, com gestos concretos, que só Deus é o Senhor.
Amém.
Pe. Uériques Santos
