Sabedoria e Justiça: O Tesouro Escondido da Liturgia de Hoje

Homilia — 17º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

A liturgia deste décimo sétimo domingo do Tempo Comum nos convida a uma descoberta que define toda a existência cristã: a descoberta daquilo que possui valor supremo, aquilo por que vale a pena dar tudo. O fio condutor que une as leituras de hoje é a virtude da justiça, não como mero cumprimento de normas exteriores, mas como aquela disposição interior da alma que ordena a pessoa à verdade, a Deus e ao próximo, tornando-a capaz de viver em comunhão autêntica.


Para compreendermos a profundidade desta virtude, convém recordar que a justiça não se reduz à observância legalista de preceitos. A justiça é, em sua essência, a vontade firme e constante de dar a cada um o que lhe é devido. Mas o que significa “dar o que é devido”? Significa, antes de tudo, reconhecer a verdade do outro: a sua dignidade, os seus direitos, a sua realidade como pessoa. O justo é aquele que vive na verdade, e a verdade é o fundamento de toda comunhão. Quem é justo reconhece-se como membro entre outros membros, no Povo de Deus e em toda a comunidade humana, e não como centro isolado do mundo. A justiça, portanto, é a virtude da alteridade: ela me tira do fechamento egoísta e me abre à realidade do outro e, sobretudo, à realidade de Deus.

É precisamente esta abertura à verdade que contemplamos no jovem Salomão, na primeira leitura. O Senhor aparece-lhe em sonho e lhe diz: “Pede o que desejas, e eu te darei” (1Rs 3,5). Salomão poderia ter pedido riquezas, vitórias, longevidade. Em vez disso, pede um coração que saiba escutar, um coração sábio, para governar o povo com justiça. Eis a chave de tudo: a verdadeira sabedoria é aquela que se ordena à justiça. Salomão compreende que reinar não é dominar, mas servir à verdade do povo, discernir o que é devido a cada um. A sabedoria que ele pede não é inteligência calculista, mas aquela percepção da realidade que permite ver as coisas como Deus as vê. E Deus, ao contemplar este pedido, se compraz, porque Salomão não pediu o que serve ao próprio ego, mas o que serve à justiça. Aqui já ressoa um ensinamento fundamental: a justiça é a virtude que me faz sair de mim mesmo e me ordena ao bem do outro. A sabedoria sem justiça não é sabedoria, mas astúcia; a justiça sem sabedoria não é justiça, mas rigidez. Salomão pede ambas, porque uma não existe sem a outra.

O Salmo responsorial prolonga este clamor. O salmista declara seu amor à lei do Senhor: “É esta a parte que escolhi por minha herança: observar vossas palavras, ó Senhor!” (Sl 118,57). À primeira vista, poderia parecer um legalismo árido. Mas não. O que o salmista exprime é o amor à verdade que Deus revelou. A lei do Senhor não é um fardo, mas o caminho da justiça, porque revela a verdade sobre o ser humano e sobre Deus. Quem ama a lei de Deus ama a ordem verdadeira das coisas, ama a justiça que brota do coração do Criador. A tradição cristã nos recorda que a justiça tem a ver com a verdade, e a lei de Deus é a expressão máxima dessa verdade. Por isso o salmista pode dizer: “A lei de vossa boca, para mim, vale mais do que milhões em ouro e prata” (Sl 118,72). A justiça é mais valiosa que a riqueza, porque a riqueza perece, mas a verdade permanece. O amor à lei de Deus é, no fundo, o amor à justiça que tem sua fonte nAquele que é a Justiça eterna.

São Paulo, na Carta aos Romanos, eleva esta reflexão ao seu plano mais profundo. “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). Aqui descobrimos a dimensão teologal da justiça: a justiça última não é a nossa, mas a de Deus. É Ele quem, em sua providência, ordena todas as coisas para o bem dos que O amam. “Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8,29). A justiça de Deus não é retribuição fria, mas a sua fidelidade amorosa que nos configura a Cristo. Deus é justo não porque castiga, mas porque é fiel à sua natureza e ao seu desígnio de amor. E a nossa justiça consiste em nos deixarmos conformar a essa imagem, em acolher a verdade de quem somos: filhos chamados à comunhão. A predestinação de que fala Paulo não é arbitrariedade divina, mas a expressão máxima da justiça de Deus, que dá a cada ser humano a dignidade de ser chamado à glória, não por mérito próprio, mas por dom. E o dom transcende a justiça sem negá-la: a justiça prepara o terreno para o amor, e o amor aperfeiçoa a justiça.

Chegamos, então, ao Evangelho. Jesus nos apresenta três parábolas: o tesouro escondido no campo, a pérola de grande valor e a rede lançada no mar. O homem que encontra o tesouro vende tudo para comprá-lo. O mercador que encontra a pérola faz o mesmo. O que estas parábolas revelam sobre a justiça? Revelam que o justo é aquele que reconhece o verdadeiro valor das coisas. O Reino dos Céus é o bem supremo, e diante dele, tudo o mais se relativiza. Dar tudo pelo Reino não é loucura, mas o supremo ato de justiça: é dar a Deus o que é de Deus. O justo é aquele que percebe a verdadeira hierarquia de valores e age em conformidade. A justiça supõe a capacidade de ver a realidade como ela é, sem distorções, sem a cegueira do egoísmo que nos faz chamar de valioso aquilo que apenas nos serve, e de inútil aquilo que nos exige renúncia. O homem do campo e o mercador da pérola viram a verdade, e a verdade exigiu tudo deles.

A terceira parábola, a da rede, nos recorda a dimensão escatológica da justiça. A rede recolhe peixes de toda espécie, bons e maus, e a separação acontece no fim. Isto nos lembra que a justiça não é apenas uma tarefa humana, mas tem seu cumprimento último no juízo de Deus. A justiça que exercemos nesta vida é participação na justiça que Deus exercerá plenamente no fim dos tempos. E o escriba douto no Reino, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas, é a imagem do cristão que integrou a sabedoria e a justiça: sabe discernir o que é verdadeiramente valioso, tanto na tradição quanto na novidade do Evangelho. É o discípulo que não descartou o antigo por modismo, nem rejeitou o novo por medo, mas que em tudo busca a verdade, porque a verdade é o habitat da justiça.

Filhos e filhas, o que esta liturgia nos ensina é que a justiça é o caminho para a felicidade verdadeira. Não a justiça dos tribunais apenas, mas aquela que brota de um coração que se ordena à verdade. A justiça que faz com que vejamos o outro não como ameaça ou instrumento, mas como pessoa, como irmão. A justiça que nos faz reconhecer que tudo o que somos e temos vem de Deus, e que a Ele devemos tudo.

Na vida concreta, isto significa: dar a Deus o tempo que Lhe é devido, na oração, na Eucaristia, na escuta atenta da Palavra, como Salomão que pediu um coração que sabe ouvir. Dar ao próximo o respeito que lhe é devido, na família, no trabalho, na comunidade paroquial, reconhecendo em cada rosto a dignidade de quem foi predestinado à imagem do Filho. Dar a si mesmo o cuidado que a dignidade humana exige, cuidando do corpo, da mente, da alma, sem a desordem do egoísmo nem a negligência do desleixo. E sobretudo, reconhecer que o Reino de Deus merece a entrega total da nossa vida, como o homem que vende tudo pelo tesouro escondido. A justiça não nos empobrece: nos enriquece com aquilo que de fato permanece.

Que o Senhor, que deu a Salomão a sabedoria da justiça, conceda a cada um de nós um coração que saiba escutar, que ame a sua lei, que confie na sua providência e que reconheça o valor inestimável do seu Reino. Que a Bem-aventurada Virgem Maria, aquela que, entre todas as criaturas, foi a mais justa, pois a ninguém mais foi dado dar a Deus o que Lhe era devido com tanta perfeição e tão total dom de si, interceda por nós, para que sejamos conformes à imagem de seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.