26º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Voltar: o movimento que salva
Há uma pergunta no Evangelho de hoje que ninguém consegue ouvir sem se olhar por dentro: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O filho que disse sim e não foi, ou o que disse não e acabou indo? A pergunta incomoda porque, em algum momento, todos nós já fomos os dois. Já prometemos sem cumprir e já recusamos e depois mudamos de rumo. E é exatamente nesse cruzamento que a Palavra de hoje nos alcança, conduzida por uma única palavra que atravessa todas as leituras: voltar.
A língua hebraica tem um verbo para isso, shub, que significa voltar, regressar, trazer de volta, virar-se para outro lado. É um dos verbos mais importantes de toda a espiritualidade bíblica, porque a conversão, na Bíblia, não é antes de tudo um sentimento: é um movimento, uma mudança de direção do corpo e da alma, um retorno. E o mais bonito é que shub se aplica nos dois sentidos: o pecador volta para Deus, e Deus, por assim dizer, se volta para o pecador, o busca, o traz de volta. Toda a liturgia de hoje é feita desse duplo movimento.
Ezequiel começa nos desarmando. O povo acusa: “A conduta do Senhor não é correta”. E o Senhor devolve a pergunta: “É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta?” É um momento de enorme lucidez espiritual, porque nós também conhecemos essa tentação de discutir com Deus para não olhar para nós mesmos. Mas o que o profeta anuncia em seguida é uma notícia extraordinária: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”. Ali está o shub, duas vezes: o ímpio se volta, se converte, e a vida é devolvida a ele. Deus não guarda contas antigas. Nenhum passado é forte o suficiente para trancar o futuro. A conversão não é um prêmio para quem nunca caiu: é a graça de quem decide se voltar agora, e Deus não cobra o caminho já percorrido, acolhe o passo que se dá hoje.
O salmo ensina como se faz essa volta. Quem quer retornar começa orando assim: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e a vossa compaixão que são eternas!” Repare no que esse pedido revela: a gente só se volta para alguém em quem confia. Por isso o salmista pede a Deus que se lembre de quem Ele mesmo é, misericórdia e bondade sem limites. E o salmo ainda mostra a condição do retorno: “O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores. Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina o seu caminho”. Aqui o shub aparece do lado de Deus: Ele mesmo reconduz, Ele mesmo traz de volta. Mas reconduz os humildes. A humildade é a porta da conversão. Não a humildade que se encolhe de vergonha, mas a que diz a verdade: errei, não consigo sozinho, preciso voltar. O caminho de Deus passa por onde o orgulho não alcança.
E aqui a reflexão ganha sua profundidade maior, no hino de Cristo que São Paulo coloca diante dos Filipenses: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus”. Cristo, sendo Deus, “esvaziou-se, tomando a condição de escravo, e tornou-se semelhante aos homens; humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz”. A tradição chama isso de kenosis, o esvaziamento. Pensemos no que isso significa para a nossa palavra de hoje. Se a conversão é voltar, o Evangelho nos revela algo espantoso: foi Deus quem fez o primeiro movimento de volta. Diante do homem caído, Deus não ficou na sua glória inacessível. Ele desceu, se esvaziou, se fez pequeno, veio até nós, até a cruz. A kenosis de Cristo é o shub de Deus: o próprio Senhor voltando ao nosso encontro, inclinando-se até o fundo da nossa miséria para nos trazer de volta. E por isso mesmo, quem quer acessar a Deus precisa trilhar o mesmo caminho: é preciso esvaziar-se, desapegar-se de si mesmo, renunciar a ser o centro. Ninguém sobe a Deus carregando a própria grandeza. O filho da parábola só conseguiu voltar quando desapegou-se do seu orgulho, quando o seu “não” deixou de ser uma posição e virou um arrependimento. O esvaziamento não é perda: é o único espaço por onde a graça entra. E a lógica do Reino se cumpre no final do hino: “Por isso Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome”. Quem se esvazia por amor é cumulado de glória por Deus.
É por isso que Jesus mesmo viveu esse movimento, e o Evangelho nos mostra isso com uma delicadeza comovente no Getsêmani, quando Ele, suando sangue, pede: “Pai meu, se é possível, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a vossa”. Repare: Jesus não finge que não tem vontade própria. Ele sente o peso, nomeia o seu desejo, o leva ao Pai, e depois o entrega. Essa é a obediência madura que Fl 2,1-11 chama de “obediente até a morte”: não a submissão de quem não tem vontade, mas a entrega de quem tem vontade e a coloca dentro da vontade do Pai. A kenosis não é ausência de desejo; é o desejo esvaziado de si e confiado ao Pai.

Com esse olhar, a parábola dos dois filhos se torna luminosa. O primeiro disse “não quero”, e depois “arrependeu-se e foi”. As nossas vontades, de fato, muitas vezes falam mais alto: o “não” inicial é a nossa resistência honesta, o nosso apego a nós mesmos. Mas a humildade está aí: reconhecer o erro e voltar atrás. O segundo filho disse “sim” e ficou parado, e há uma advertência silenciosa nisso: o sim dito com a boca e negado com a vida é a fé que não se esvazia, a religião que não se abaixa, a palavra que não vira caminho. Jesus não hesita em apontar quem fez a vontade do pai, e entrega a chave: “os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”. Eles não precedem porque o pecado seja pequeno, mas porque creram e mudaram de direção: fizeram o shub com os pés, não apenas com os lábios. A fé que salva não é a que declara, é a que caminha de volta.
O que isso pede de nós, concretamente, nesta comunidade? Primeiro, que ninguém se sinta fora de alcance. Se você se afastou, se disse um dia um não que ainda dói, se o seu orgulho ainda sustenta uma distância, a Palavra de hoje é para você: Deus não está esperando a sua explicação, está esperando o seu passo. A porta da casa do Pai não tem trinco do lado de dentro. Segundo, um cuidado para quem está dentro, para todos nós que rezamos e servimos: vigiar o sim que não vira caminho, o cumprimento que virou rotina sem encontro. Que a Eucaristia de hoje, onde a kenosis de Cristo se faz presente sob o pão simples, nos encontre mudando de ideia, como o primeiro filho, e nos ensine a orar como Ele orou: não se faça a minha vontade, e sim a vossa. Talvez a nossa volta comece por um gesto pequeno esta semana: um pedido de perdão adiado, uma visita a alguém distante, uma decisão justa que vinhamos evitando, um tempo diante do sacrário. O importante não é o tamanho do passo, é a direção.
Que a Virgem Maria, que esvaziou-se inteira para dizer o seu sim, nos ajude a fazer do nosso arrependimento um caminho e do nosso sim uma obediência alegre. E que o Senhor, rico em ternura, nos conceda a coragem de voltar, hoje, enquanto é hoje.
Pe. Uériques Santos
