Homilia — Solenidade de Santa Helena

“É justo que me custe o que muito me vale.”

Primeira Leitura: 1Rs 10,1-10 Evangelho: Mt 13,44-45

Uma Frase que Ilumina uma Vida

Há uma frase de Santa Tereza D’Ávila que resume, com beleza desconcertante, toda a economia espiritual da Cruz: “É justo que me custe o que muito me vale.”

Pequena, mas densa. Nela está comprimida uma teologia inteira do desejo, da renúncia, do tesouro e do preço. Hoje, ao celebrarmos Santa Helena, esta frase se revela como a lente perfeita para ler o seu gesto. Helena não a pronunciou, mas a viveu antes que qualquer palavra a expressasse.

Ao empreender a busca pela Cruz de Cristo em Jerusalém, escavando escombros de três séculos, gastando recursos do império, enfrentando a indiferença e talvez o escárnio de muitos, Helena fez desta frase a sua biografia espiritual.

Esta é a chave que abre as duas leituras que a Igreja nos põe hoje diante dos olhos.

A Rainha do Sul e o Desejo que Move

A Primeira Leitura nos apresenta a Rainha de Sabá. Ela ouviu falar da fama de Salomão e algo se acendeu nela. Não bastou o relato. Não bastou a fama. Precisou ver por si mesma.

Travou uma jornada longa e difícil, por desertos e montanhas, por terras hostis e caminhos desconhecidos, carregando ouro, especiarias e pedras preciosas, os maiores tesouros de seu reino, para depor aos pés da sabedoria que a atraía.

Notemos bem: a Rainha não vai para receber. Vai para oferecer. Leva o que tem de mais valioso porque intui que aquilo que busca vale mais do que tudo o que possui. E quando finalmente chega, quando vê a sabedoria de Salomão, a casa que construíra, a ordem de sua corte, os holocaustos que oferecia no Templo, a Escritura diz que “não ficou mais nela espírito algum”: fica sem fôlego. O que encontrou superou tudo o que lhe haviam contado.

E então ela diz aquelas palavras que ressoam até hoje: “Era verdade, portanto, quanto ouvi dizer em minha terra a respeito de ti e de tua sabedoria. Não queria acreditar no que me diziam, até que vim e vi com meus próprios olhos. E eis que não me haviam contado nem a metade.”

A Rainha de Sabá é o primeiro esboço, no Antigo Testamento, da alma que busca. Ensina uma verdade fundamental: o desejo de Deus não se satisfaz com ouvir falar. Exige a jornada. Exige a partida. Exige deixar algo para trás.

O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

O Evangelho de hoje é o coração da liturgia desta festa. Jesus diz que o Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, esconde de novo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.

Depois, outra imagem: um comerciante que procura pérolas preciosas. Encontra uma de grande valor e, igualmente, vende tudo para possuí-la.

Há uma diferença sutil e profunda entre as duas parábolas que os Padres da Igreja gostavam de explorar. No primeiro caso, o homem não procurava o tesouro: tropeça nele, quase por acaso. No segundo, o comerciante procurava: era seu ofício, sua vida, sua vocação. Ambos, porém, fazem a mesma coisa: vendem tudo.

Isto significa que não importa se você encontrou Cristo por um acaso que mudou tudo, numa dor, num nascimento, num perdão recebido, ou se O busca há uma vida inteira com método e disciplina. O que importa é o que acontece depois do encontro. O que importa é que o tesouro encontrado reorganiza toda a sua existência. Aquilo que antes parecia valioso, o ouro da Rainha, as mercadorias do comerciante, se revela como peso morto diante do que se encontrou.

E notem: o homem do campo não vende tudo por obrigação. Vende cheio de alegria. A renúncia não é triste. Não é amarga. É a alegria de quem percebe estar fazendo o melhor negócio de sua vida.

Aqui está a pergunta que nos toca hoje: o que é esse tesouro? O que é essa pérola?

Santa Helena: A Mulher que Procurou a Cruz

E aqui, irmãos, chegamos ao centro da festa de hoje. Santa Helena é a encarnação viva destas três figuras: é a Rainha de Sabá que empreende uma jornada; é o comerciante que procura pérolas; é o homem que encontra um tesouro no campo.

Helena era mãe do imperador Constantino, aquele mesmo que, no ano 313, pelo Edito de Milão, concedeu liberdade aos cristãos após séculos de perseguição. Mas a liberdade legal não bastava. Havia uma ferida mais antiga na memória da Igreja: a Cruz tinha sido perdida. Não perdida no sentido de extraviada. Perdida no sentido de enterrada, oculta, coberta pela terra, pelos escombros, pela história.

Helena, já idosa, tinha cerca de oitenta anos quando partiu para a Terra Santa, por volta do ano 326. Movida por um desejo que não a deixava em paz, decide ir pessoalmente buscar a Cruz de Cristo.

Pensem no que isso significava. Havia quase trezentos anos que a Cruz tinha sido enterrada. O imperador Adriano, no século II, havia mandado construir um templo pagão sobre o Calvário, dedicado a Vênus, justamente para apagar a memória da Cruz. Queria que aquele lugar fosse esquecido. Queria que os cristãos não pudessem mais venerar o madeiro da salvação.

E assim, a Cruz estava literalmente escondida num campo, como na parábola de Jesus. Coberta. Escondida. Esquecida.

Helena não ia buscar ouro. Não ia buscar glória. Não ia buscar poder. Ia buscar madeira. Um instrumento de execução. O objeto mais vergonhoso do mundo antigo. A coisa que São Paulo disse ser “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23).

Ia buscar o escândalo. Ia buscar a loucura. Ia buscar a Cruz.

Por quê? Porque Helena sabia algo que o mundo esqueceu: a Cruz é o tesouro escondido. A Cruz é a pérola de grande valor. A Cruz não é um símbolo de derrota; é o trono do Rei. Não é madeira da morte; é a árvore da vida.

E quando, após escavações profundas, três cruzes foram encontradas, a de Cristo e as dos dois ladrões, não se sabia qual era qual. A tradição nos conta que o bispo Macário de Jerusalém teve uma inspiração: levou as três cruzes até uma mulher mortalmente enferma. A primeira cruz foi tocada nela: nada. A segunda: nada. Mas quando a terceira a tocou, a mulher foi curada instantaneamente. Era a Cruz de Cristo. O madeiro da vida havia sido encontrado.

E Helena, como o homem da parábola, não guardou o tesouro para si. Mandou construir a Basílica do Santo Sepulcro. Repartiu fragmentos da Cruz para todo o mundo cristão. Porque quem encontra o tesouro não o esconde para si; faz com que todos possam encontrá-lo.

O Mistério da Cruz: Onde Está Escondido o Tesouro

Aqui precisamos entrar na profundidade teológica. O mistério da Cruz é o ponto em que todas as leituras convergem.

A Cruz é o tesouro escondido no campo por excelência. Onde está escondido? No sofrimento. Na humilhação. Na morte. No lugar onde ninguém pensaria em procurar. Deus escondeu seu maior tesouro não num palácio, não num templo de ouro, mas num madeiro infamante.

Isto é o que São Paulo chamou de a “loucura de Deus mais sábia que os homens” (1Cor 1,25). Deus escondeu a salvação no lugar onde o mundo só vê derrota. E quem quiser encontrar este tesouro precisa fazer o que Helena fez: escavar. Remover os escombros. Enfrentar o que está enterrado. Não ter nojo do que parece feio, porque ali, debaixo daquela cruz, debaixo daquele sofrimento, está a vida.

A Rainha de Sabá levou ouro a Salomão. Helena levou sua fortuna, sua velhice, sua determinação ao Calvário. O comerciante vendeu tudo pela pérola. Helena vendeu tudo pela Cruz.

A Cruz é o espelho no qual vemos o rosto de Deus. No espelho da Cruz, Deus não aparece como onipotente distante, não aparece como juiz severo, não aparece como legislador frio. No espelho da Cruz, Deus aparece como aquele que se esvazia, que se entrega, que desce até o fundo para nos levantar. A Cruz não é o lugar onde Deus castiga. É o lugar onde Deus ama até o fim.

A Rainha de Sabá ficou sem fôlego diante da sabedoria de Salomão. Helena ficou sem fôlego diante do amor do Crucificado.

“É Justo Que Me Custe o Que Muito Me Vale”

Aqui brilha a frase de Santa Tereza D’Ávila como uma lâmpada sobre o gesto de Helena: “É justo que me custe o que muito me vale.”

Esta frase é o resumo de toda a espiritualidade da Cruz. Diz: aquilo que custa, custa porque vale. O preço não é injusto; é proporcionado. Se a Cruz de Cristo custou o Sangue do Filho de Deus, é justo que me custe pelo menos o meu esforço, os meus recursos, a minha vida.

Isto inverte toda a lógica do mundo. O mundo diz: “se custa, não vale a pena.” A tradição carmelitana, encarnada por Helena, diz: “justamente porque vale, é justo que custe.”

E esta é a ligação profunda com o Evangelho. O homem que encontra o tesouro vende tudo. Não diz: “que pena ter que vender.” Faz com alegria. Porque calculou: aquilo que dou é nada diante do que recebo. O custo é real, mas o valor é infinitamente maior.

Irmãos, é aqui que a Palavra hoje nos interpela diretamente. Quantas vezes queremos o tesouro sem pagar o preço? Queremos a paz sem a cruz. Queremos a alegria sem a renúncia. Queremos a vida sem a morte. Queremos a ressurreição sem a Sexta-Feira Santa.

Encontrar a Nossa Cruz: Onde Está Escondido o Nosso Tesouro

E aqui, irmãos, deixem-me fazer a pergunta que importa para cada um de nós, hoje: onde está a minha cruz? Onde está a sua?

Talvez esteja exatamente ali onde menos esperamos, escondida no campo da nossa vida cotidiana.

Na dor da enfermidade. Aquele corpo que já não responde, aquela dor crônica que se acomoda no dia a dia, aquele diagnóstico que mudou tudo, aquela cama de hospital onde se repete, em silêncio, a oferta do Corpo de Cristo. A cruz está escondida na cama do doente.

Na renúncia diária. Levantar cedo quando o corpo pesa, cuidar de quem não retribui, sustentar a casa quando o cansaço grita, abrir mão do que se quer para que o outro tenha o que precisa. A cruz está escondida no serviço invisível.

No tempo doado. Aquele tempo que ninguém vê, que não aparece em foto nenhuma, que não rende aplauso. A hora de escutar quem precisa desabafar. A visita ao enfermo. A oração silenciosa de madrugada. A paciência com o filho, com o idoso, com o difícil. A cruz está escondida no tempo gasto por amor.

Na fadiga do matrimônio. Recomeçar a paciência todos os dias, perdoar a mesma ferida, carregar junto o peso de uma família, envelhecer ao lado de alguém e descobrir que o amor verdadeiro é mais madeira que maracujá. A cruz está escondida na fidelidade que ninguém aplaude.

Na luta interior. Aquele pecado que insiste, aquela tentação que volta, aquela aridez espiritual que parece um céu de bronze, aquela oração que parece não passar do teto. A cruz está escondida no combate que ninguém vê.

E aqui, irmãos, é preciso cuidado pastoral. Nem todo sofrimento é cruz. A cruz não é qualquer dor. A cruz é o sofrimento abraçado por amor a Cristo. O sofrimento suportado com raiva é apenas peso morto: esmaga e não salva. O sofrimento abraçado com amor é tesouro escondido: pesa, mas transforma; fere, mas redime.

A diferença não está na dor, está no modo de carregar. O bom ladrão e o mau ladrão foram crucificados ao lado de Jesus. Carregaram a mesma madeira. Sofreram a mesma morte. Mas um carregou com desespero e blasfêmia; o outro carregou com arrependimento e fé, e ouviu: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). A mesma cruz. Destinos diferentes. Tudo depende de como se carrega.

Santa Helena foi a Jerusalém escavar a cruz. Nós não precisamos ir a Jerusalém. A nossa cruz já está aqui. O que precisamos é escavar: tirar de cima dela os escombros da raiva, do ressentimento, da autocompaixão, da revolta, da murmuração. E, debaixo de tudo aquilo, encontrar o madeiro que salva.

O Cálculo do Amor: o Custo e o Valor

E quando o encontramos, quando finalmente enxergamos a cruz que carregávamos sem saber, quando a abraçamos com amor, ouvimos de novo a voz de Santa Tereza D’Ávila:

“É justo que me custe o que muito me vale.”

Porque aquela enfermidade que custa: vale, se for carregada com Cristo. Porque aquele cansaço que custa: vale, se for oferecido com Cristo. Porque aquela renúncia que custa: vale, se for abraçada com Cristo. Porque aquele tempo doado que custa: vale, se for gasto por amor a Cristo. Porque aquela fidelidade invisível que custa: vale, se for vivida com Cristo.

Tudo o que é abraçado com amor a Cristo custa, e tudo o que é abraçado com amor a Cristo vale.

O mundo calcula o preço. O cristão calcula o valor. O preço é o que se paga; o valor é o que se recebe. E na economia do Reino, o valor é sempre infinitamente maior que o preço.

Pensem bem: o homem da parábola vendeu tudo. À vista de quem passava, ele pareceu louco. Vender tudo por um campo? Que tolice. Mas ele sabia o que o campo continha. Ele calculou não pelo que via, mas pelo que estava escondido. E aquele cálculo, o cálculo do amor, o encheu de alegria.

É este o cálculo que falta ao mundo de hoje. O mundo só sabe calcular o preço. Não sabe calcular o valor. Por isso o mundo foge da cruz, foge do sacrifício, foge da entrega: porque só enxerga o lado que custa. Não enxerga o lado que vale.

A mãe que sabe o valor do filho não reclama do preço da madrugada. O pai que sabe o valor da família não reclama do preço do trabalho. O doente que sabe o valor da redenção não reclama do preço da cruz. O sacerdote que sabe o valor das almas não reclama do preço do ministério.

Irmãos, é justo que me custe o que muito me vale, porque aquilo que me vale é Cristo, e Cristo vale tudo.

A Cruz Não Fica Enterrada para Sempre

Uma última coisa. Helena foi buscar uma cruz que estava enterrada há trezentos anos. Mas notem o que aconteceu depois: a Cruz não voltou a ser enterrada. Helena a encontrou, a ergueu, a repartiu, a levou ao mundo. A Cruz que estava escondida se tornou visível.

Isto nos ensina algo sobre as nossas cruzes. A cruz não foi feita para ficar enterrada. A cruz foi feita para ser erguida. Carregada. Levantada. Abraçada. Oferecida.

Quantas cruzes carregamos enterradas dentro de nós, escondidas, negadas, recusadas? Quantas dores levamos debaixo da terra, como Helena encontrou a Cruz debaixo da terra? O Senhor nos convida hoje, por intercessão de Santa Helena, a escavar. A tirar de debaixo dos escombros aquela cruz que temos vergonha de mostrar, aquela ferida que escondemos, aquele sofrimento que negamos. E a erguê-la. Não para nos exibir, mas para unilá à Cruz de Cristo, que é a única que salva.

Porque, no fim, a cruz que carregamos não é apenas a nossa. Unida à de Cristo, ela se torna o tesouro que nos salva. E nela, nEle, está toda a nossa redenção.

Conclusão

Santa Helena, idosa, mãe de imperador, foi ao lugar da Cruz quando ninguém mais se lembrava que ali havia uma Cruz. Ensina-nos que o tesouro está sempre onde menos se espera: no campo escondido, na madeira infamante, no sofrimento abraçado com amor.

Mas hoje, nesta Paróquia Santa Helena e Santo Cura d’Ars, lembramos uma verdade ainda mais próxima: não precisamos ir a Jerusalém. A nossa cruz já está aqui. No altar desta paróquia, renovamos o sacrifício do Calvário. E na vida de cada um de nós, a cruz se apresenta de novo: na enfermidade, na renúncia, no tempo doado, na fidelidade escondida, na luta interior que ninguém vê.

Que Santa Helena interceda por nós. Que ela nos ensine a escavar debaixo dos escombros da nossa vida. Que nos dê a coragem de vender tudo pelo tesouro, a sabedoria de procurar a pérola de grande valor, e a generosidade de abraçar a cruz que nos foi dada.

E que, diante de cada sofrimento que a vida nos apresentar, possamos dizer, com Santa Tereza D’Ávila, com Santa Helena, com todos os santos que nos precederam nesta caminhada:

“É justo que me custe o que muito me vale.”

Porque aquilo que nos vale é Cristo. E Cristo vale tudo.

Pe. Uériques Santos