Homilia – 21º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

A Chave do Sonho Eterno de Deus

22 de agosto de 2026

Introdução

Há um fio de ouro que percorre toda a liturgia deste domingo e que, se o tocarmos com a mão da fé, fará ressoar em nosso coração algo que precede o próprio universo: o impenetrável, o inescrutável, o perfeito e sapientíssimo plano de Deus que, desde toda a eternidade, sonhou e desejou a sua Santa Igreja. Antes que existisse o sol para iluminar a terra, antes que as águas recebessem a ordem de se ajuntar, antes que o homem fosse modelado do barro, já havia no coração do Pai o projeto de uma esposa para o seu Filho, uma esposa que ele lavaria com seu sangue, com quem celebraria uma nova e eterna aliança, e sobre a qual depositaria toda a autoridade recebida do Pai: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28,18).

A Igreja não é uma instituição meramente humana, um acidente histórico, uma organização religiosa surgida da boa vontade de homens piedosos. A Igreja é o sonho eterno de Deus. E hoje, a Palavra nos convida a contemplar esse sonho através de um símbolo poderoso e concreto: a chave. Da primeira leitura ao Evangelho, é a chave que abre para nós o mistério da Igreja, de Pedro, e da confissão que a sustenta.

Reflexão sobre a Primeira Leitura

O profeta Isaías, no capítulo 22, nos transporta ao palácio do rei Ezequias, em Jerusalém. Ali encontramos um homem chamado Sobna, administrador do palácio, isto é, o detentor das chaves dos tesouros reais. Era um cargo de altíssima responsabilidade: suas mãos controlavam o acesso aos bens do rei, aos lugares secretos, à administração da casa real. Mas Sobna era corrupto. Em vez de guardar o que lhe fora confiado, desviava os recursos para construir para si um túmulo suntuoso, um monumento à própria vaidade.

Deus, então, pronuncia o juízo por meio do profeta: “Eu vou te destituir do posto que ocupas e demitir-te do teu cargo” (Is 22,19). A chave será tirada das mãos infiéis e entregue a outro, a Eliaquim, filho de Helcias, homem de confiança que será “um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá” (Is 22,21). E o Senhor declara solenemente: “Eu farei levar aos ombros a chave da casa de Davi. Ele abrirá e ninguém poderá fechar. Ele fechará e ninguém poderá abrir” (Is 22,22).

Aqui, vemos o símbolo da chave como expressão de autoridade delegada. A chave não pertence a quem a carrega; ela pertence ao dono da casa. Sobna esqueceu-se disso, agiu como se a chave fosse sua, como se o palácio fosse seu, como se os tesouros fossem seus. Foi precipitado de seu posto. Eliacim, por sua vez, é fixado “como estaca em lugar seguro” e recebe o “trono de glória na casa de seu pai” (Is 22,23).

A tradição da Igreja enxerga nesta figura de Sobna a prefiguração de Pedro (não no sentido de corrupção, mas no de cargo) e no profeta que anuncia a substituição a imagem de Cristo, o Deus todo-poderoso que tem o poder de tirar e de dar, de destituir e de constituir. Eliacim, o servo fiel, prefigura aquele que receberia não mais a chave de um palácio terrestre, mas as chaves do Reino dos céus. É por isso que esta leitura foi escolhida para a Missa de hoje: porque o Evangelho nos mostrará Cristo entregando a Pedro uma chave infinitamente maior.

Reflexão sobre o Evangelho

Chegamos ao ápice da liturgia da Palavra. Jesus conduz os discípulos à região de Cesareia de Filipe e faz uma pergunta que não nasce da ignorância (pois Cristo, sendo Deus, conhece desde a eternidade cada pensamento, cada ato, cada palavra de cada pessoa em todos os tempos), mas do desejo de levar os discípulos à constatação de quão equivocadas eram as opiniões humanas a seu respeito: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13).

As respostas chegam dispersas e confusas: uns dizem que é João Batista, outros Elias, outros Jeremias ou algum dos profetas. Tudo equivocado. Nenhum deles percebeu a verdadeira identidade de Jesus. E então vem a pergunta decisiva, aquela que atravessa os séculos e chega até cada um de nós hoje: “E vós? Quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15).

Simão Pedro toma a frente. E o que ele diz não é apenas correto, é inspirado. “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Há uma profundidade teológica desta afirmação. Messias (em hebraico Mashiach, em grego Christos, em português Ungido) é o título central do Antigo Testamento, a figura aguardada por todo Israel, aquela em torno da qual orbitam todas as profecias. Mas o título messiânico, por si só, não necessariamente implica divindade. É aqui que Pedro acrescenta algo que muda tudo: “Filho do Deus vivo”.

Por que este acréscimo é tão decisivo? Porque no tempo de Jesus abundavam os deuses, Marte, Júpiter, Saturno, Netuno, Plutão, Poseidon, e os mitos pagãos estavam repletos de “filhos de deuses”. O próprio Antigo Testamento, em Gênesis 6, usa a expressão “filhos de Deus” para designar seres espirituais, e ela se aplica também a Salomão e a Davi. Mesmo os demônios, em momentos como a expulsão em Gadara, chamaram Jesus de “Filho de Deus” (Mc 1,24; Mt 8,29). Mas Jesus censurou os demônios, “Cala-te!”, enquanto elogiou Pedro: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17).

Qual é a diferença? Os deuses pagãos são ídolos mortos, pedaços de pedra e madeira sem vida. Mas Pedro disse “Filho do Deus vivo”, declarando que o Messias esperado não é apenas um enviado, mas é Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. É esta confissão que faz de Pedro a pedra. É um Deus vivo, Ressuscitado.

E então vem a promessa que institui a Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).

Relação entre Pedro, a Igreja e a Confissão de Fé

Mas precisamos ir mais fundo. Cristo não edificou a Igreja sobre um homem, isto é, não foi a pessoa frágil de Simão, o pescador, que se tornou o fundamento. Cristo edificou a Igreja sobre a confissão de Pedro. O que sustenta a Igreja não é a excelência moral de Pedro (que, como sabemos, chegou a negar o Senhor três vezes), mas a verdade que saiu de sua boca: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Eis a pedra. Eis o fundamento. Eis onde está edificada a Igreja.

E aqui entramos no coração do mistério: Pedro só é pedra porque Cristo é a Pedra Viva. O apóstolo Paulo, falando do povo da antiga aliança, declara: “Bebiam da pedra espiritual que os acompanhava, e aquela pedra era Cristo” (1Cor 10,4). Cristo é a pedra angular, a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular (Sl 118,22; At 4,11; 1Pe 2,4-7). Pedro deriva de pedra, assim como “cristão” deriva de “Cristo”. A pedra não vem de Pedro, mas Pedro vem da pedra. O nome não vem do homem, mas do Senhor.

Cristo muda o nome de Simão para Pedro (Kepha em aramaico, Petros em grego) para significar que aquele que confessa a fé participa da natureza da Rocha eterna. Pedro é pedra porque confessou a Pedra. E o que ele confessou é exatamente o que São Paulo ensina como o núcleo da salvação: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10,9). A confissão de Pedro é a primeira proclamação orgânica daquilo que São Paulo formulou para todas as gerações: é pela confissão da boca e pela fé no coração que se entra na salvação, e é sobre essa confissão que Cristo edifica a sua Igreja.

Santo Agostinho, no Sermão 229, comenta exatamente esta realidade com uma profundidade que atravessa os séculos. Diz o Bispo de Hipona:

“Em Pedro vemos uma alusão à pedra, mas o apóstolo Paulo, falando do povo da antiga aliança, diz: ‘Bebiam da pedra espiritual que os acompanhava, e aquela pedra era Cristo.’ Esse discípulo é chamado Pedro com um termo derivado de pedra, como cristão deriva de Cristo. Por que quis iniciar o sermão com essas observações? Para exortar que se reconheça em Pedro a Igreja, aquela Igreja que Cristo não edificou sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro.”

E Agostinho prossegue, no Sermão 76:

“Foi-lhe dado este nome pelo Senhor para passar a ser designado por Pedro. E isto simbolicamente para significar a Igreja. Pois, uma vez que Cristo é a pedra, Pedro é o novo cristão, é o povo cristão. Com efeito, pedra é o nome principal. Por isso, Pedro vem de pedra, e não é a pedra que vem de Pedro, tal como não é do cristão que vem Cristo, mas por via de Cristo é que vem o nome de cristão. Portanto, disse o Senhor: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra que tu confessaste, sobre esta pedra que reconheceste ao dizer: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo, edificarei a minha Igreja’, ou seja, sobre mim próprio, que sou o Filho de Deus vivo, edificarei a minha Igreja. Sobre mim te edificarei e não sobre ti.”

Conclusão: A Segunda Leitura e o Abismo do Desígnio Divino

Eis que chegamos à segunda leitura, e aqui compreendemos por que ela foi colocada neste dia. São Paulo, ao concluir três capítulos de reflexão sobre o destino de Israel (Rm 9-11), explode num hino de admiração: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória para sempre. Amém” (Rm 11,33-36).

Filhos caríssimos, contemplai o que o Apóstolo nos diz. Ao contemplar a Igreja, essa realidade que Cristo quis edificar sobre a confissão de Pedro, Paulo exclama diante do abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus. Contemplando a figura de Pedro, que recebeu poderes que não desapareceriam com sua morte, mas que perdurariam em seus legítimos sucessores até o fim dos tempos, Paulo se prostra diante do abismo do poder de Deus, que confia tantas graças ao pastor do rebanho: “Apascenta as minhas ovelhas… cuida do meu redil… rege com as chaves nas tuas mãos o meu povo, o redil pelo qual eu derramei o meu sangue” (cf. Jo 21,15-17).

O plano de Deus é insondável, mas não é inacessível. Ele escolheu revelar-se não aos sábios, não aos poderosos, mas a um pescador de Betsaida que, movido pelo Pai, abriu a boca e disse quem é Jesus. E sobre essa confissão, sobre a fé de Pedro e de todos os que, como Pedro, confessam que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Cristo edificou a sua Igreja.

Que o Senhor nos conceda amar esta Igreja, amar o Sucessor de Pedro, amar Jesus Cristo que a quis una, santa, católica e apostólica. E que, como Pedro, tenhamos sempre nos lábios e no coração a confissão que abre as portas do céu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

A ele a glória para sempre. Amém.


Pe. Uériques Santos