O dízimo terminou com Jesus? Entenda o que Ele ensinou

Uma dúvida atravessa com frequência a vida de muitos católicos, sobretudo daqueles que já tiveram contato com correntes cristãs que rejeitam essa prática: o dízimo não seria algo restrito ao Antigo Testamento, encerrado com a vinda de Cristo? A pergunta é legítima e merece uma resposta que una fidelidade às Escrituras e clareza doutrinária.

O que realmente mudou com Cristo

É verdade que Jesus superou diversas práticas da Antiga Aliança. Os sacrifícios de animais no Templo, por exemplo, encontraram seu cumprimento definitivo no único sacrifício de Cristo na cruz (Hb 10,10). A Lei antiga, em muitos de seus preceitos rituais, foi transfigurada pela Nova Aliança. Mas nem tudo o que vem do Antigo Testamento pertence apenas a essa categoria ritual e transitória — e o dízimo, aqui, exige um olhar mais cuidadoso.

Uma raiz mais antiga que a própria Lei de Moisés

Como já mencionado, o gesto de dizimar aparece pela primeira vez muito antes da Lei mosaica, quando Abraão oferece o dízimo a Melquisedeque (Gn 14,20) — episódio que a Carta aos Hebreus retoma justamente para mostrar que esse sacerdócio, e o gesto de oferta que o acompanha, tem uma dignidade que precede e ultrapassa a Lei (Hb 7,1-10). Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, situa o dízimo dentro daquilo que chama de lei natural: o princípio segundo o qual quem se dedica ao serviço do bem comum — no caso, os ministros do culto — deve ser sustentado por aqueles a quem serve. Um princípio de justiça que não depende de nenhuma legislação particular, porque nasce da própria razão e da ordem natural das coisas.

O que Jesus disse sobre o dízimo

O próprio Jesus não aboliu essa prática — pelo contrário, a pressupõe como algo já estabelecido e válido. Em Mateus 23,23, ao repreender os fariseus, Ele não os critica por dizimarem até mesmo a hortelã, o endro e o cominho. Sua crítica recai sobre o que eles negligenciaram: “a justiça, a misericórdia e a fé”. E conclui: “Estas coisas era preciso praticar, sem omitir aquelas” — ou seja, Jesus confirma a validade do dízimo, ao mesmo tempo em que ensina que ele só tem sentido pleno quando acompanhado de um coração justo e misericordioso.

Da lei ao amor

É esse o verdadeiro desenvolvimento que Cristo traz: não a abolição do dízimo, mas seu aprofundamento. No Antigo Testamento, a prática tinha contornos de preceito legal, com percentuais e regras bem definidas. Com Jesus, o centro se desloca do cumprimento formal para a disposição do coração. É o que se vê, por exemplo, no elogio que Ele faz à viúva pobre que oferece duas pequenas moedas: não pelo valor, insignificante aos olhos humanos, mas porque ela “deu tudo o que tinha para viver” (Mc 12,44). O que conta, diante de Deus, não é a soma entregue, mas a liberdade e o amor com que se entrega.

Uma prática viva na Igreja de hoje

Por isso a Igreja Católica, ao longo de sua história, manteve o dízimo como expressão legítima de fé e corresponsabilidade — não como sobrevivência de uma lei ultrapassada, mas como continuidade de um princípio que Cristo confirmou e aprofundou. O dízimo católico de hoje não é imposição, nem se sustenta em tabelas fixas: é resposta livre de quem, como a viúva do Evangelho, reconhece que tudo o que possui vem de Deus e a Ele pode, com confiança, ser devolvido.

A Missa das Primícias em nossa Paróquia

É essa mesma espiritualidade que a paróquia vive, de forma concreta, na Missa das Primícias. Todo primeiro fim de semana do mês, em todas as celebrações, o Pe. Uériques reserva um momento especial para abençoar os dizimistas da comunidade.
O nome remete diretamente ao livro dos Provérbios: “Honra ao Senhor com a tua riqueza e com as primícias de todos os teus frutos” (Pr 3,9) — a mesma lógica bíblica de oferecer a Deus o melhor, e não apenas o que sobra.
Durante a celebração, os dizimistas são convidados a se aproximar do presbitério para receber a Oração de Consagração, que é lida em conjunto e, ao final, depositada como gesto simbólico em um cesto próprio, seguida da aspersão com água benta. Não é um ato administrativo, mas um gesto litúrgico: assim como Abraão devolveu a Deus as primícias do que recebera, cada dizimista renova, publicamente e diante do altar, a mesma confiança na Providência.